
(Português)
Ricardo Tavares L.
Ler es ressuscitar ideias sepultadas no papel
Simón Rodríguez
Que outros presumam dos livros que lhes têm sido dado escrever,
eu presumo de aqueles que me foi dado ler...
Jorge Luis Borges
A leitura é considerada uma das destrezas receptivas, mas não passivas, que usa o homem quando se comunica. Embora seja receptiva, o ato de ler implica una labor mental importante, porque consiste em decodificar uma série de códigos que partilha com o emissor, com a finalidade de obter e compreender uma mensagem.
Mas este processo, em aparência mecánico, requer do leitor grande concentração (se não, seria um analfabeto funcional), dado que entram em jogo múltiplos fatores linguísticos, cognitivos, físicos, entre outros.
A finalidade ao momento de ler pode variar significativamente a nossa compreensão da mensagem, nosso ánimo ou disposição para empreender esta tarefa, e até ferramentas a usar. Este aspecto é o que me motiva a escrever este texto.
Vou explicar este fato a partir da minha própria experiência. Na atualidade considero que tenho várias maneiras de ler conforme os meus objetivos específicos: por estudo, por trabalho, para comunicar, por informação, por prazer.
Ler por estudo
Isto tem sido frequente nos meus estudos universitários tanto de pré-grado como de pós-graduação. A leitura é pausada, porque é requerida grande concentração para compreender todos os conceptos teóricos y explicações que o autor oferece no texto (se se tratar de textos académicos). Ferramentas como dicionários, papel e lápis são necessárias para esclarecer dúvidas de vocabulário, tomar nota de conceptos chave, elaboração de resumos… Muitas vezes torna-se exaustiva a leitura se existir a pressão de reter grandes quantidades de informação para logo ser expostas na sala de aula a través de intervenções y exposições, ou demonstrar conhecimentos num exame.
Ler por trabalho
O meu trabalho consiste em corrigir os erros de livros e artigos de revistas que vão ser publicados. Cá a leitura é ainda mais lenta, embora a finalidade em si não consista em compreender a mensagem. É claro, há que tomar conta do que está escrito só com o objetivo de detectar erros de ortografia, gramática, elementos ortotipográficos não unificados, etc. A quantidade de ferramentas a utilizar é maior: canetas de tinta vermelha, highlighters, tipp-ex, post-it, dicionários, enciclopédias, manuais de estilo, gramáticas, computador com conexão à Internet... A leitura é total, no sentido de que são lidos até os créditos da publicação, encabeçados, sequência de páginas, capas, contracapas, detalhes que numa leitura convencional não são considerados. A pressão existente nesta leitura não consiste na retenção de informação, mas na eficácia do trabalho de correção e no tempo de entrega acordado.
Quando escrevo, também empreendo uma leitura de trabalho dos rascunhos. Tenho comprovado que a revisão dum texto feita pelo seu próprio autor é bem diferente da executada por um revisor de textos profissional: o autor esmera-se em detectar erros de fundo mais do que de forma, completar onde acha há carências, eliminar o supérfluo. O revisor profissional, pelo contrário, esmera-se em detectar erros de forma mais do que de fundo, além de contemplar a obra final no seu conjunto como acima se explicou. Isto deve-se a que o revisor profissional nao é experto nos múltiplos tópicos especializados que toca-lhe corrigir, e por isso deve fixar-se ao essencialmente linguístico e ortotipográfico (conforme aos usos que exige o estilo e o género literário correspondente), o que no impede que suspeite de algum descuido ou contradição de fundo, em cujo caso deve tomar as medidas pertinentes.
Ler para comunicar
Esta é a destreza que desenvolvo em duas circunstâncias: quando leio a palavra de Deus na missa e quando devo dirigir-me a uma audiência especializada numa apresentação. Ambas as atividades possuem características que as diferenciam entre si, embora tenham em comum a leitura em voz alta dirigida a um grupo de pessoas. No caso da missa, devo fazer uma leitura prévia do texto, pois devo conhecer o conteúdo, as palavras que o enfatizam, aqueles topónimos ou nomes de difícil pronúncia... Sobre isto tenho uma história: o pároco da minha paróquia, o padre Rafael Cartaya, insistia na pronúncia do esse na palavra nos, porque na Venezuela esta consoante em posição coda tende a ser aspirada e mesmo elidida, com o risco de que seja percebido tudo o contrário. Um exemplo deste fenómeno é esta frase tomada do salmo 66 «que nos bendiga Dios [que Deus nos abençoe]»; se não for pronunciado o esse como fricativo alveolar surdo /s/, mas como fricativo glotal surdo /h/ – considerando até a distorção sonora que por vezes gera o microfone –, o ouvinte poderia perceber «que no bendiga Dios [que Deus não abençoe]». Seguindo nas considerações deste tipo de leitura, conhecer o género literário do texto é de grande importância, devido a que o tom da leitura mudará notavelmente em cada caso: uma narração não pode ser lida do mesmo jeito que um salmo, que uma epístola ou mesmo que a Paixão de Cristo que é lida na Semana Santa (Domingo de Ramos e Sexta Feira Santa), onde o leitor le protagonizando um papel (quer como narrador, quer como as vozes da gente, quer como as palavras de Jesus, que neste caso o interpreta o sacerdote celebrante), o que implica um ligeiro toque de dramatização.
Quanto à leitura levada a cabo numa apresentação, esta pode ser optativa. Geralmente eu prefiro ler o meu próprio texto quando me é exigido um rigoroso controle de tempo de intervenção, y essa solução garante que todos os conteúdos sejam abordados dentro do espaço temporal estabelecido. Esta leitura já pede um trabalho prévio de escritura, medição de tempo, controle da velocidade, etc. Em tais circunstâncias complemento esta atividade com uma amostra de algum material visual para que a audiência possa estar orientada.
Ler por informação
É a atividade que faço quando leio a imprensa, algum livro, páginas de Internet, manuais de instruções, textos de consulta, avisos publicados em cartazes... É uma leitura mais relaxada em comparação com as anteriores e muitas vezes mais veloz e versátil. Não me paro em tantos detalhes como na leitura por estudo, trabalho ou para comunicar, e é a que um empreende com maior frequência ao longo do dia. Vai-se ao texto apenas para captar uma mensagem específica.
Ler por prazer
Por paradoxal que pareça, chegar a este ponto é difícil, por não dizer impossível, se não se estiver envolvido em alguma das diversas leituras comentadas antes. Esta é uma leitura que empreendo sobre tudo naqueles livros ou textos preferidos por mim, aos quais volto uma e outra vez. Se calhar é a leitura mais relaxada de todas, porque não existe pressão externa de nenhum tipo. É mais livre, porque um retorna àquelas páginas onde está a mensagem desejada, ou também se empreende uma nova aventura lendo um livro recém comprado na livraria u obsequiado por um amigo. O deleite consiste em apreciar os bons conceitos, reflexões e sensações plasmados pelo autor, o modo de escrever tais palavras... A literatura nos seus diversos géneros é um campo aberto para desenvolver este tipo de leitura.
Podem-se entrecruzar estas leituras? Sim. Por vezes a leitura de trabalho é feita sobre um texto tão interessante desde o ponto de vista temático que a labor é também informativa ou mesmo agradável. No meu caso particular, desde que trabalho como revisor não posso evitar encontrar detalhes ortotipográficos nas minhas leituras de estudo, informação ou prazer, até nem sou capaz de parar a ação do meu vermelho instrumento perante erros muito graves.
***
(Español)
VARIAS LECTURAS, VARIAS FINALIDADES
Ricardo Tavares L.
Leer es resucitar ideas sepultadas en el papel
Simón Rodríguez
Que otros se jacten de los libros que les ha sido dado escribir,
yo me jacto de aquéllos que me fue dado leer...
Jorge Luis Borges
La lectura es considerada una de las destrezas receptivas, que no pasivas, que emplea el hombre al momento de comunicarse. Aunque sea receptiva, el acto de leer implica una labor mental importante, puesto que consiste en decodificar una serie de códigos que comparte con el emisor, con la finalidad de obtener y comprender un mensaje.
Pero este proceso, en apariencia mecánico, requiere del lector gran concentración (si no, sería un analfabeto funcional), dado que entran en juego múltiples factores lingüísticos, cognitivos, físicos, entre otros.
La finalidad que se persigue al momento de leer puede variar significativamente nuestra comprensión del mensaje, nuestro ánimo o disposición para emprender esta tarea, e incluso herramientas a emplear. Este aspecto es lo que me empuja a escribir este texto.
Voy a explicar este hecho a partir de mi propia experiencia. En la actualidad considero que tengo varias maneras de leer según mis finalidades específicas: por estudio, por trabajo, para comunicar, por información, por placer.
Leer por estudio
Esto es frecuente en mis estudios universitarios tanto de pregrado como de postgrado. La lectura es pausada, puesto que se requiere de gran concentración para comprender todos los conceptos teóricos y explicaciones que el autor ofrece en el texto (si se trata de textos académicos). Herramientas como diccionarios, papel y lápiz son necesarias para aclarar dudas de vocabulario, tomar nota de conceptos clave, elaboración de resúmenes… Muchas veces se torna exhaustiva la lectura si existe la presión de retener grandes cantidades de información para luego ser expuestas en clase a través de intervenciones y exposiciones, o demostrar conocimientos en un examen.
Leer por trabajo
Mi trabajo consiste en corregir las erratas de libros y artículos de revistas que serán publicados. Aquí la lectura es aún más lenta, aunque la finalidad en sí no consista en comprender el mensaje. Por supuesto, hay que estar al tanto de lo que está escrito sólo con el objetivo de detectar errores de ortografía, gramática, elementos ortotipográficos no unificados, etc. La cantidad de herramientas a utilizar es mayor: bolígrafos de tinta roja, resaltadores, tipp-ex, post-it, diccionarios, enciclopedias, manuales de estilo, gramáticas, computadora con conexión a Internet... La lectura es total, en el sentido de que se leen hasta los créditos de la publicación, encabezados, secuencia de páginas, portada, contraportada, detalles que en una lectura convencional no son considerados. La presión existente en esta lectura no consiste en la retención de información, sino en la eficacia del trabajo de corrección y en el tiempo de entrega acordado.
Cuando escribo, también emprendo una lectura de trabajo de los borradores. Aquí he comprobado que la corrección de un texto emprendida por su propio autor es distinta a la ejecutada por un corrector de textos profesional: el autor se esmera en detectar errores de fondo más que de forma, completar donde cree hay carencias, eliminar lo superfluo. El corrector profesional, por el contrario, se esmera en detectar errores de forma más que de fondo, además de contemplar la obra final en su conjunto como arriba se explicó. Esto se debe a que el corrector profesional no es experto en los múltiples tópicos especializados que le toca revisar, por lo que debe atenerse al aspecto netamente lingüístico y ortotipográfico (conforme a los usos que exige el estilo y el género literario correspondiente), lo que no impide que sospeche de algún descuido o contradicción de fondo, en cuyo caso debe tomar las medidas pertinentes.
Leer para comunicar
Esta es la destreza que desarrollo en dos circunstancias: cuando leo la palabra de Dios en misa y cuando debo dirigirme a una audiencia especializada en una ponencia. Ambas actividades poseen características que las diferencian entre sí, pese a tener en común la lectura en voz alta dirigida a un grupo de personas. En el caso de la misa, debo hacer una lectura previa del texto, pues debo estar al tanto del contenido, las palabras que lo enfatizan, aquellos topónimos o nombres de difícil pronunciación... Sobre esto tengo una anécdota: el párroco de mi parroquia, el padre Rafael Cartaya, hacía hincapié en la pronunciación de la ese en la palabra nos, dado que en Venezuela esta consonante en posición coda suele ser aspirada e incluso elidida, corriendo el riesgo de que se entienda todo lo contrario. Un modo de entender gráficamente este fenómeno es esta frase tomada del salmo 66 «que nos bendiga Dios»; si no se pronuncia la ese como fricativa alveolar sorda, sino como fricativa glotal sorda –considerando incluso la distorsión sonora que por veces genera el micrófono–, el oyente pudiera entender «que no bendiga Dios». Siguiendo en las consideraciones de este tipo de lectura, estar claro sobre el género literario del texto es de suma importancia, debido a que el tono de la lectura cambiará notablemente según concierna: una narración no puede ser leída de la misma manera que un salmo, que una carta o incluso que la Pasión de Cristo que se lee en Semana Santa (Domingo de Ramos y Viernes Santo), en donde ya el lector lee protagonizando un papel (bien como narrador, bien como las voces de la gente o bien como las palabras de Jesús, que en este caso lo interpreta el sacerdote celebrante), lo que implica un ligero toque de histrionismo.
En cuanto a la lectura llevada a cabo en una ponencia, ésta puede ser optativa. Por lo general prefiero leer mi propio texto cuando se me exige un riguroso control de tiempo de intervención, y tal solución garantiza que todos los contenidos sean abordados dentro del espacio temporal establecido. Esta lectura ya pide un trabajo previo de escritura, medición de tiempo, control de la velocidad, etc. En tales circunstancias complemento esta actividad con una muestra de algún material visual para que la audiencia pueda estar ubicada.
Leer por información
Es la actividad que emprendo cuando leo la prensa, algún libro, páginas de Internet, manuales de instrucciones, textos de consulta, avisos publicados en carteleras... Es una lectura más relajada en comparación con las anteriores y muchas veces más veloz y versátil. No me detengo en tantos detalles como en la lectura por estudio, trabajo o para comunicar, y es la que uno emprende con mayor frecuencia a lo largo del día. Se acude al texto apenas para captar un mensaje específico.
Leer por placer
Por paradójico que parezca, llegar a este punto es difícil, por no decir imposible, si no se está involucrado en alguna de las diversas lecturas comentadas antes. Esta es una lectura que emprendo sobre todo en aquellos libros o textos preferidos por mí, a los cuales acudo una y otra vez. Es tal vez la lectura más relajada de todas, porque no existe presión externa de ningún tipo. Es más libre, porque se acude a aquellas páginas donde está el mensaje deseado, o también se emprende una nueva aventura leyendo un libro recién comprado en la librería u obsequiado por un amigo. El deleite consiste en apreciar los buenos conceptos, reflexiones y sensaciones plasmados por el autor, el modo de escribir tales palabras... La literatura en sus diversos géneros es un campo abierto para desarrollar este tipo de lectura.
¿Se pueden entrecruzar estas lecturas? Sí. A veces la lectura de trabajo se hace sobre un texto tan interesante desde el punto de vista temático que la labor es también informativa o incluso placentera. En mi caso particular, desde que trabajo como corrector no puedo evitar encontrar detalles ortotipográficos en mis lecturas de estudio, información o placer, incluso no soy capaz de detener la acción de mi bermejo instrumento ante erratas muy graves.